Repertório Cantado
***
LETRAS
Preguiça de coleira (Paulo Bira)
Que pressa é essa?
Perguntou uma preguiça
Eu vou à missa,
Respondeu outra preguiça
Espere por mim, que eu vou
também!
Então venha depressa,
Porque a missa começa,
Domingo que vem!
Jacaré de papo amarelo (Paulo Bira)
Sou primo do jacaré-tinga, do
jacaré-açu, do jacaré-coroa,
Moro onde tem água,
Seja rio ou ribeirão, riacho
ou lagoa…
Se alguém mexe comigo,
Ou com meus parentes,
Abro a minha boca,
E mostro os meus dentes!
Peixe-boi (Paulo Bira)
Quando você achar um bicho
gordinho
Comendo capim no fundo do rio
Diga oi, oi peixe-boi
Diga oi, oi peixe-boi
Quando você encontrar um bicho
gordinho
Nadando tranquilo no fundo do
rio
Diga oi, oi, oi peixe-boi
Diga oi, oi oi peixe-boi
Uacari (Paulo Bira)
Que cara é essa?
Está com pressa?
Que cara vermelha!
Bebeu groselha?
Ou foi picada de abelha?
Uacari, macaco careca
Uma criatura diferente
A cara do uacari
Parece... caricatura de gente!
Dona libélula (Tom Zé e Zeca Baleiro)
Essa dona libélula não é de
prosa
Falar com gente não é com
ela.
Não é falante mas é
mentirosa.
Essa exibida fadinha magrela
Nunca vi tanto apelido
esquisito:
Macaquinho, cabra-cega,
pito-do-demo, zabumba,
Papa-mosquito, chupeta e
cambito,
Canzil, calunga, aviãozinho,
lava-bunda
Mas que mentira… demoiselle
chique!
Mas que mentira… donzelinha
encantada!
Mas que mentira…risca-água!
Ziguezigue!
Peguei na mentira… libelinha!
Fada!
Minhoca minhoco (Hélio Ziskind)
Minhoca, minhoca
Me dá uma beijoca
Não dou, não dou, não dou
Então eu vou roubar
Minhoco, minhoco
Cê tá ficando louco
Beijou do lado errado!
A boca é do outro lado!
A borboleta e a lagarta (Palavra Encantada)
Lá lá lá, lá, lá, lá vai
uma lagarta
Tá tá tá tá sempre a
mastigar
Nhac, nhac, nhac
Como está com fome
Come come come sem parar
Lá,lá,lá lá lá, lá, lá
vai borboleta
Tá tá tá tá livre a voar
Flap, flap, flap
Cor de violeta
Uma flor voando pelo ar
Flap flap flap flap flap flap
flap
Nhac, nhac, nhac, nhac
Será que a borboleta lembra
que já foi lagarta?
Será que a lagarta sabe que um
dia vai voar?
Onça-pintada (Paulo Bira)
Quem pintou a onça-pintada?
Pintou primeiro a pintinha
preta,
Ou a pintinha dourada?
Quando a onça-pintada, fica
irritada
A bicharada dá no pé!
Ela só não vira uma onça,
Porque onça ela já é!
A tartaruga e o lobo (Palavra Cantada)
Como toda tartaruga,
Levo minha casa comigo
Que é feita de casca dura
Pra proteger do inimigo
E quando um lobo bem bobo
Vem tonto e aparece e quer me
comer...
Eu entro na casca dura
Que é a casa da tartaruga
Dona tartaruga me deixe entrar!
Dona tartaruga só quero
conversar!
Dona tartaruga abra logo essa
porta!
Abra logo essa porta que eu
quero entrar!
Deixa de ser bobo lobo cê não
me engana não,
Vai embora lobo cê aqui não
entra não
Deixa de lorota cê não quer
conversar
Deixa de lorota o lobo quer me
jantar
Como toda tartaruga,
Levo minha casa comigo
Que é feita de casca dura
Pra proteger do inimigo
E quando um lobo bem bobo
Vem tonto e aparece e quer me
comer...
Eu entro na casca dura
Que é a casa da tartaruga
Dona tartaruga já perdi a
paciência
Dona tartaruga vou usar da
inteligência
Dona tartaruga assim não dá
mais pé
Abra logo essa porta ou entro
pela chaminé
Deixa de ser bobo não existe
chaminé
Vai embora seu lobo vai amolar
o jacaré
Se você quiser pode soprar com
furor
Que dona tartaruga gosta de
ventilador
O pinguim (Chico Buarque)
Bom dia, pingüim
Onde vai assim
Com ar apressado?
Eu não sou malvado
Não fique assustado
Com medo de mim
Eu só gostaria
De dar um tapinha
No seu chapéu jaca
Ou bem de levinho
Puxar o rabinho
Da sua casaca
Quando você caminha
Parece o Chacrinha
Lelé da caixola
E um velho senhor
Que foi meu professor
No meu tempo de escola
Pingüim, meu amigo
Não zangue comigo
Nem perca a estribeira
Não pergunte por quê
Mas todos põem você
Em cima da geladeira
A formiga (Mariana de Moraes)
As coisas devem ser bem grandes
Pra formiga pequenina
A rosa, um lindo palácio
E o espinho, uma espada fina
A gota d'água, um manso lago
O pingo de chuva, um mar
Onde um pauzinho boiando
É navio a navegar
O bico de pão, o corcovado
O grilo, um rinoceronte
Uns grãos de sal derramados,
Ovelhinhas pelo monte
Urubu-rei (Zeca Baleiro)
Garçom, garçom
Pois não, majestade
Leve daqui, esse filé mignon
Qual é então a vossa vontade?
Quero uma carniça bem
fedorenta,
Preparada com muita podridão,
Vermes e bactérias de montão,
E um pouquinho de pimenta!
Na asa do vento (Caetano Veloso)
Deu meia noite, a lua faz o
claro
Eu assubo nos aro, vou brincar
no vento leste
A aranha tece puxando o fio da
teia
A ciência da abeia, da aranha
e a minha
Muita gente desconhece
Muita gente desconhece, olará,
viu?
Muita gente desconhece
Muita gente desconhece, olará,
tá?
Muita gente desconhece
A lua é clara, o sol tem
rastro vermelho
É o mar um grande espelho onde
os dois vão se mirar
Rosa amarela quando murcha
perde o cheiro
O amor é bandoleiro, pode inté
custar dinheiro
É fulô que não tem cheiro e
todo mundo quer cheirar
Todo mundo quer cheirar, olará,
viu?
Todo mundo quer cheirar
Todo mundo quer cheirar, olará,
tá?
Todo mundo quer cheirar
As borboletas (Gal Costa)
Brancas, azuis, amarelas e
pretas
Brincam na luz as belas
borboletas
Borboletas, borboletas
Borboletas brancas são alegres
e francas
Borboletas azuis gostam muito
de luz
As amarelinhas são tão
bonitinhas
E as pretas, então, ó que
escuridão
O leãozinho (Caetano Veloso)
Gosto muito de te ver,
leãozinho
Caminhando sob o sol
Gosto muito de você, leãozinho
Para desentristecer, leãozinho
O meu coração tão só
Basta eu encontrar você no
caminho
Um filhote de leão, raio da
manhã
Arrastando o meu olhar como um
ímã
O meu coração é o sol, pai
de toda cor
Quando ele lhe doura a pele ao
léu
Gosto de te ver ao sol,
leãozinho
De te ver entrar no mar
Tua pele, tua luz, tua juba
Gosto de ficar ao sol,
leãozinho
De molhar minha juba
De estar perto de você e
entrar no mar
Pé de feijão (Hélio Ziskind)
Plantei um pé de feijão,
Num copo d’água com algodão
E toda noite, antes de dormir
(Eu faço o que?)
Eu molho a esponjinha cinza no
banheiro
(Tu-turu)
Eu venho arrastando o chinelo
feito um pandeiro
(chic-chic-chic)
Eu venho fazendo a voz do
trovão!
(kabum)
A chuva... vai molhar a
plantação!
Na trilha, na mata, a pé (Nhambuzim)
Eu, mais Maria, mais Zé
Na trilha, na mata, a pé
Quando vi num galho alto
Um bicho enorme dando um salto
Suspenso pelo rabo
Tão bonito e engraçado
Quando eu vi num galho torto
Bicho esperto, que alvoroço
Astuto e maroto
Que beleza, sinhô moço
Pula daqui, pula dali
Que bicho, sinhô, é esse ali?
Pula pra lá, pula pra cá
Que bicho, sinhá, é aquele
lá?
Eu, mais Maria, mais Zé
Paramos pra ver quem é
Com o danado tinha outro
Embolado, belo enrosco
Era a cria – que barato
Agarrada no pescoço
E atrás vinha mais outro
E mais outro e mais outro
Um bando passeando
Coisa linda, sinhô moço
Pula daqui, pula dali
Que bicho, sinhô, é esse ali?
Pula pra lá, pula pra cá
Que bicho, sinhá, é aquele
lá?
É o muriqui! É o macaco mais
lindo que eu já vi
É o muriqui, só de olhar dá
vontade de sorrir
Eu, mais Maria, mais Zé
Na trilha, na mata, a pé
Eu não tenho onde morar (Dorival Caymmi)
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na
areia
Eu nasci pequenininho
Como todo mundo nasceu
Todo mundo mora direito
Quem mora torto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na
areia
Vivo na beira da praia
Com a sorte que Deus me deu
Maria mora com as outras
Quem paga o quarto sou eu
Eu não tenho onde morar
É por isso que eu moro na
areia
Feira (Luiz Waack e Rita Rameh)
Segunda-feira tem feira na
esquina
Se apressa menina que vamos pra
lá
Na quarta-feira tem feira
senhora
Olha não demora que vai acabar
O que tem lá?
Cenoura, chuchu, abobrinha,
alface fresquinha
Repolho e agrião
Tomilho, alho e salsinha, erva,
cebolinha e manjericão
O que tem lá?
Morango, ameixa e uva, laranja
madura
Abacate e melão
Limão, kiwi, pera dura, banana
nanica
Maçã e mamão
Então me traga uma melancia
Dois abacaxis, três maços de
almeirão
E não se esqueça do peixe bem
fresco
Um quilo de batata e muito
salsão
Os irmãos (Grupo Cria)
Eu vou dizer, mãe, o que
aconteceu
Eu tava lendo o livro que você
me deu
E de repente veio ele
estabanado
Chegou bem aqui do lado
E soltou um pum daqueles
Quem começou foi ele!
Mas você sabe, mãe, que eu
sou um santo
Eu tava ali, quietinho no meu
canto
E de repente veio ela com um
papo
Cê sabe que eu fico brabo
Se me chama de banguela...
Quem começou foi ela!
Desculpa, mãe, a gente só
tava brincando
É que a brincadeira esquenta
Fica um pouco violenta
E aparenta que tava brigando
Eu sei, mas pai já foi tudo
esclarecido
É que a gente já tá crescido
Já aprende com o ouvido
A gente nem precisa de
castigo...
Eu vou dizer, pai, tudinho que
ele fez
Ele disfarça na frente de
vocês
Mas escondido ele me dá um
sopapo
Faz barulho com o sovaco
‘Inda mostra a língua dele
Quem começou foi ele!
Pai, vou dizer o que tá
acontecendo
Eu tava ali, jogando meu
Nintendo
E de repente veio ela enxerida
Me fez perder duas vidas
Sem me deixar ver a tela
Quem começou foi ela!
Irmão é mesmo um bicho
Um tanto quanto interessante
Briga, ama e segue adiante
Às vezes quando cresce
Fica um pouco mais distante
Mas continua implicante!
De gotinha em gotinha (Palavra cantada)
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
De gotinha em gotinha
Brilha no orvalho da manhã
De gotinha em gotinha
Limpa o oceano de amanhã
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
De gotinha em gotinha
Brilha no orvalho da manhã
De gotinha em gotinha
Limpa o oceano de amanhã
É pra cuidar, purifcar
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
"Era uma vez uma gotinha
de água
Redondinha e bonitinha
Um dia ela tava tomando banho
de sol
E a coitadinha que era
pequenininha
Foi encolhendo, encolhendo até
que puf! sumiu"
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver
Água é uma gota de chuva
É uma gota de nuvem
É uma gota de água pra viver,
água
Todos estão surdos (Roberto Carlos/Pato Fu)
Desde o começo do mundo
Que o homem sonha com a paz
Ela está dentro dele mesmo
Ele tem a paz e não sabe
É só fechar os olhos e olhar
pra dentro de si mesmo
Tanta gente se esqueceu
Que a verdade não mudou
Quando a paz foi ensinada
Pouca gente escutou
Meu amigo volte logo
Venha ensinar meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo
Outro dia, um cabeludo falou:
"Não importam os motivos
da guerra
A paz ainda é mais importante
que eles."
Esta frase vive nos cabelos
encaracolados
Das cucas maravilhosas
Mas se perdeu no labirinto
Dos pensamentos poluídos pela
falta de amor.
Muita gente não ouviu porque
não quis ouvir
Eles estão surdos!
Tanta gente se esqueceu
Que o amor só traz o bem
Que a covardia é surda
E só ouve o que convém
Mas meu amigo volte logo
Vem olhar pelo meu povo
O amor é importante
Vem dizer tudo de novo
Canto do povo de algum lugar (Caetano Veloso)
Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia
Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde
Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite
Ciranda (Palavra cantada)
Deixa de manha de noite e de
dia
Toda criança diz que tudo é
seu
Hei, menino! Hei, menina! Larga
disso, lagartixa
Que nessa ciranda o mundo
inteiro é meu, é seu, é meu, é seu...
Como uma vez tinha um tatu
bolinha
Mais outra vez nasceu um monte
de irmãos
Mais o amigo, mais a prima, o
colega, a vizinha
E nessa ciranda o tatu bolinha
virou bolão, balão, bolão, balão...
O pato (Vinicius de Moraes)
Quén! Quen? Quén! Quen?
Lá vem o pato, pata aqui, pata
acolá
Lá vem o pato, para ver o que
é que há
O pato pateta, pintou o caneco
Surrou a galinha, bateu no
marreco
Pulou do poleiro, no pé do
cavalo
Levou um coice, e criou um galo
Comeu um pedaço de jenipapo
Ficou engasgado com dor no papo
Caiu no poço quebrou a tigela
Tantas fez o moço que foi pra
panela
Quém, quém, quém, quééem,
Queem, queem
Quém, quém, quém, quééem,
Queem, queem
Tchibum da cabeça ao bumbum (Palavra Cantada)
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Todo dia banho
Desde o dia em que eu nasci
Mamãe o que é que eu ganho
Por que tanto banho assim ?
E não adianta manha
Ela joga água em mim
De noite ou de manhã
Desde o dia em que nasci
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Todo dia banho
Só porque sou um bebê
Alguém do meu tamanho
Não escolhe o que fazer
Mas quando eu crescer
Aí não tem mais nada
Só vou entrar no banho
Pra sair com a namorada
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Todo dia banho
Só porque sou um bebê
Alguém do meu tamanho
Não escolhe o que fazer
Mas quando eu crescer
Aí não tem mais nada
Só vou entrar no banho
Pra sair com a namorada
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Da cabeça ao bumbum
Tchibum, tchibum
Alecrim (Domínio público)
Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado
Foi meu amor
Que me disse assim
Que a flor do campo é o
alecrim
Marinheiro só (Domínio público)
Eu não sou daqui - marinheiro
só
Eu não tenho amor - marinheiro
só
Eu sou da Bahia - marinheiro só
De São Salvador - marinheiro
só
Ô, marinheiro marinheiro -
marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar -
marinheiro só
Ou foi o tombo do navio -
marinheiro só
Ou foi o balanço do mar -
marinheiro só
Lá vem, lá vem - marinheiro
só
Como ele vem faceiro -
marinheiro só
Todo de branco - marinheiro só
Com o seu bonezinho -
marinheiro só
Peixe vivo (Domínio público)
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia
Peixinhos do mar (Domínio público)
Quem me ensinou a nadar
Quem me ensinou a nadar
Foi, foi marinheiro
Foi os peixinhos do mar
O vira (Secos e molhados)
O gato preto cruzou a estrada
Passou por debaixo da escada.
E lá no fundo azul, na noite
da floresta.
A lua iluminou, a dança, a
roda, a festa.
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem, vira,
vira
Vira, vira, lobisomen
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem, vira,
vira
Bailam corujas e pirilampos
entre os sacis e as fadas.
E lá no fundo azul, na noite
da floresta.
A lua iluminou, a dança, a
roda, a festa.
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem, vira,
vira
Vira, vira, lobisomen
Vira, vira, vira
Vira, vira, vira homem, vira,
vira
A casa (Toquinho)
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque pinico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na rua dos bobos
Número zero
Cultura (Arnaldo Antunes)
O girino é o peixinho do sapo
O silêncio é o começo do
papo
O bigode é a antena do gato
O cavalo é pasto do carrapato
O cabrito é o cordeiro da
cabra
O pecoço é a barriga da cobra
O leitão é um porquinho mais
novo
A galinha é um pouquinho do
ovo
O desejo é o começo do corpo
Engordar é a tarefa do porco
A cegonha é a girafa do ganso
O cachorro é um lobo mais
manso
O escuro é a metade da zebra
As raízes são as veias da
seiva
O camelo é um cavalo sem sede
Tartaruga por dentro é parede
O potrinho é o bezerro da égua
A batalha é o começo da
trégua
Papagaio é um dragão
miniatura
Bactérias num meio é cultura
Sai, ó piaba (Domínio público)
Sai, sai, sai,
Ó, piaba,
Saia da lagoa.
Bota a mão na cabeça,
A outra mão na cintura.
Dá um remelexo no corpo,
Dá uma umbigada
No outro.
Pindorama (Palavra Cantada)
(Terra à vista!)
Pindorama, Pindorama
É o Brasil antes de Cabral
Pindorama, Pindorama
É tão longe de Portugal
Fica além, muito além, do
encontro do mar com o céu
Fica além, muito além, dos
domínios de Dom Manuel
Vera Cruz, Vera Cruz
Quem achou foi Portugal
Vera Cruz, Vera Cruz
Atrás do Monte Pascoal
Bem ali Cabral viu, dia 22 de
abril
Não só viu, descobriu, toda a
terra do Brasil
Pindorama, Pindorama
Mas os índios já estavam aqui
Pindorama, Pindorama
Já falavam tudo em tupi
Só depois, vêm vocês, que
falavam tudo em português
Só depois com vocês, nossa
vida mudou de uma vez
Pero Vaz, Pero Vaz
Disse em uma carta ao rei
Que num altar, sob a cruz
Rezou missa o nosso frei
Mas depois seu Cabral, foi
saindo devagar
Do país tropical, para as
Índias encontrar
Para as índias, para as índias
Mas as índias já estavam aqui
Avisamos: Olha as índias!
Mas Cabral não entende tupi
Se mudou para o mar, ver as
índias em outro lugar
Deu chabu, deu azar, muitas
naus não puderam voltar
Mas, enfim, desconfio
Não foi nada ocasional
Que Cabral, num desvio
Viu a terra e disse: "Uau!"
Não foi não, foi um fim, foi
um plano imperial
Pra aportar seu navio, num país
monumental
A Álvares Cabral
A El Rei Dom Manuel
Ao índio do Brasil
E ainda quem me ouviu
Vou dizer, descobri
O Brasil tá inteirinho na voz
Quem quiser vai ouvir
Pindorama tá dentro de nós
A Álvares Cabral
A el-rei Dom Manuel
Ao índio do Brasil
E ainda quem me ouviu
Vou dizer, vem ouvir
É um país muito sutil
Quem quiser descobrir
Só depois do ano 2000
Na mata (Barbatuques)
Brinco uma vida inteira, brinco
e nao posso parar
Pedra cipó cachoeira promessas
de um outro lugar
Meu canto vem da vontade de ver
o mundo mudar
Deixo pra traz a cidade vou
redescobrir meu lugar
Fruta madura chamando no pé
agua doce pra banha
Mãe terra tão generosa que
é como o sol todo dia a raiar
(Tudo que tem lá) na mata
Urucum e cajá (tudo que tem
lá) na mata
Copaíba açaí (tudo que
tem lá) na mata
Arara azul araçá (tudo que
tem lá) na mata
Sumo e saliva
Filhos da mesma floresta céu,
curumim, sabiá
Gotas de chuva pra festejar
giro cantando no ar
Fruta madura chamando no pé
água doce pra banhar
Mãe terra tão generosa que
é como o sol todo dia a raiar
(Tudo que tem lá) na mata
Urucum e cajá (tudo que tem
lá) na mata
Copaíba açaí (tudo que
tem lá) na mata
Arara azul araçá (tudo que
tem lá) na mata
E a saudade de um tempo que vem
anunciar
Nova volta no mundo
Com as asas abertas e o vento a
me guiar pro horizonte
Um desejo de tudo
Que a vida pode dar água nova
brotando
Minhas roupas jogadas começo
a respirar
Esse é o meu lugar
Eu vou prá lá vêm comigo
vê no mato cômico mico, macaco mamorana e camará
Pirarucú sapo-cururu cotia
calango, quelônio, jia têm purus e juruá
Tupã nos livre da puçanga
da iara da muganga dessa cara feia do mapinguari
E pras muié, solteira nos
igarapé cuidado que o boto pega pra fazê uns bacuri
Kamaiurá, coaraci, caetê
João do alto (Siba e Marcelo Pretto)
João do Alto, voando
Esperando o sinal da criatura
(João do Alto, voando
Esperando o sinal da criatura)
Se parece um deputado
Com paletó bem passado, de
linho de pena escura
(João tá lá na altura)
Seu escritório é o céu
Lá despacha sem papel, carimbo
e assinatura
(João tá lá na altura)
O seu serviço é comer
E o vivente que morrer sem
direito à sepultura
(João tá lá na altura)
Bate ponto no horário
Mesmo sem ser funcionário de
nenhuma prefeitura
(João tá lá na altura)
Só se alimenta de graça
Onde encontra uma carcaça mete
o bico, rasga e fura
(João tá lá na altura)
Merenda sem reclamar, engole
sem mastigar
Porque não tem dentadura
(João tá lá na altura)
Nunca injetou refeição
Come carne e sai no chão
pensando que é rapadura
(João tá lá na altura)
Tudo que come pesado, porém
não fica empachado
Voando alto se cura
(João tá lá na altura)
Nunca invejou um pavão, que
não canta uma canção
Nem se tiver partitura
(João tá lá na altura)
Pode o pavão ter beleza, mas
também tem asa presa
E nos ares não se pendura
(João tá lá na altura)
Só respeita o gavião
Por ele ter instrução na
mesma literatura
(João tá lá na altura)
Ou a coruja sabida, conhecedora
da vida
Sem precisar de leitura
(João tá lá na altura)
Homem empregado da morte
João do Alto tem sorte porque
vive na fartura
(João tá lá na altura)
Mas também vai virar pó
Porque o seu paletó a morte
também costura
(João tá lá na altura)
João do Alto, voando e
esperando o sinal da criatura

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